ORGANIZANDO A JUVENTUDE PARA UM SUS POPULAR
RELATO DE VIVÊNCIA - VER-SUS 2015.1 - SERTÃO DO PAJEÚ – PE
“Como
só o conhecimento liberta, não pode existir educação popular fora dos processos
de luta popular. Assim, a lutar popular é a educação popular aplicada, pois,
quem sabe como fazer, mas nunca fez, ainda não sabe. A luta popular articula a
ação de dar o peixe pra quem tem fome, de ensinar a pescar pra quem precisa
sair da dependência e de elaborar uma estratégia para tomar de volta os rios
que se tornaram propriedade privada.” (Ranolfo Peloso).
Falar do Ver-SUS é lembrar de uma
história que não se iniciou nessa versão da qual participei. Tudo começou em
uma viagem que fiz ao Rio de Janeiro em 2013. Foi lá que pela primeira vez ouvi
falar desse projeto que trazia sorrisos nos rostos daqueles que já tinham
participado. Aquela alegria, euforia que era visível nessas pessoas me
despertou uma curiosidade em saber que projeto tão bom era esse. Às pessoas que
eu conheci no Rio de Janeiro faziam parte da organização do Ver-SUS de lá, e aos
poucos fui descobrindo mais sobre esse projeto, o tempo passou e ano passado o
universo continuou conspirando para que eu não parasse de pensar no Ver-SUS,
entrei para o DCE da UFRN, conheci pessoas do movimento estudantil de outros
estados que voltaram a falar do projeto. Em abril de
2014, participei de um acampamento em São Paulo, onde aconteceram oficinas e
uma delas falava do Ver-SUS, uma menina que construía o Ver-SUS Pernambuco foi lá
falar desse projeto. E eis que mais uma vez escuto falarem com um sorrisão no
rosto e a certeza de que construí-lo é uma oportunidade imensa de aprendizado e
des/construção.
O tempo passou, li bastante sobre o
projeto e surgiu a oportunidade de me inscrever no Ver-SUS 2015.1 de Pernambuco,
decidi então me inscrever e ver no que ia dar. Adoro sair do meu lugar e
conhecer coisas e gente nova, com realidades diferentes e imaginei que o projeto
na roupagem pernambucana ia me proporcionar isso. Então, lá fui eu, inscrita, e
posteriormente selecionada para ser mais uma vivente do Ver-SUS 2015.1 Sertão do
Pajeú – PE.
O
estágio de vivências aconteceu em janeiro de 2015 nos dias 8 à 21 e foi
construído por estudantes, professores, movimentos sociais, profissionais de
saúde. A coordenação nacional permite que a comissão estadual que constrói a
vivência tenha autonomia quanto a metodologia utilizada. Eis a grande
diferença do Ver-SUS 2015.1 Sertão do Pajeú – Serra Talhada.
Essa edição tinha uma proposta
diferente, que era trabalha a perspectiva de rede de atenção, daí a importância
estratégica de ser realizada em Serra Talhada, a cidade de Lampião, sede da XI
GERES (Gerência Regional de Saúde) de Pernambuco.
Ficamos alojados no assentamento do MST
(Virgulino Ferreira) na comunidade de Serrinha. Participaram da vivência cerca
de 70 pessoas, entre eles estavam estudantes não apenas da área da saúde, mas
também de cursos como serviço social, psicologia, integrantes de movimentos
sociais como o MST como viventes, além dos facilitadores.
A nossa vivência foi dividida em
alguns eixos temáticos, que contemplaram não apenas entender o setor saúde como
também entender a sociedade e lutar pela saúde no seu conceito ampliado. Então,
cada dia um eixo era abordado e foi seguida a seguinte sequência: 1-Sociedade,
2-Políticas públicas e as lutas sociais, 3-Opressões, 4-Determinantes sociais e
da saúde e populações especificas, 5-Atenção básica e Promoção da saúde,
6-Saúde mental com a perspectiva da integralidade, 7-Saúde: Pública x Privada,
8-Movimentos sociais, e 9-O papel social do graduando.
Todos os dias foram construídos
coletivamente, éramos responsáveis por toda limpeza (banheiros, panelas,
louças, quartos, plenária), assim como ajudar a contribuir com os espaços de
debates caso quiséssemos sugerir algo aos facilitadores do dia, isso só
acontecia porquê foi nos deixado claro desde do início que aquela vivência era
nossa, logo todos construiríamos juntos.
O
que falar dos eixos?
Bem, cada debate era singular e
instigante. A metodologia utilizada facilitava nosso envolvimento em todos os
momentos apesar da rotina intensa. Outro fator que contribuiu para
singularidade dessa vivência foi a lógica na qual os eixos foram organizados. Iniciamos
tentando entender a sociedade que vivemos, como ela está organizada, quem de
fato tem interesse em deixar as coisas do jeito que estão (status quo), quem é
o real inimigo do povo, dos vulneráveis, oprimidos, das massas. E entendendo
quem seria esse inimigo aprendemos que precisamos de políticas públicas que
deixem de favorece-los e comecem a nos representar de fato, que sejamos de fato
representados por quem está no poder, por quem pensa as políticas de saúde e
sociais de forma geral. Nos primeiros eixos sobre, sociedade, políticas,
opressões muita gente estava se perguntando o que porque falar desses temas, o
que tinha a ver com saúde, e foi muito bom ver que todos no fim descobriram o
porquê desse debate, e o quanto saber disso enriquece nosso entendimento sobre
saúde e sociedade.
O dia de debate sobre racismo, LGBTFOBIA e machismo foi muito intenso, cheio de emoções, foi um dos dias mais
fortes pra mim, perceber que ainda vivemos em um mundo opressor no qual algumas
vezes os oprimidos reproduzem as opressões, e pior ainda que tais opressões
muitas vezes acontecem dentro da nossa própria casa. Dói, dói muito ver a dor
do outro, que também é minha dor. Dói mais ainda ver que aquele que é formado
para cuidar, não aprende de fato a cuidar do outro seja quem for esse outro. É
diária as ações opressões que ocorrem dentro do nosso sistema de saúde, privado
ou público, a violência obstétrica é um exemplo disso. Eis a importância de se
falar sobre opressões, de mostrar para aqueles que não conseguem ver ou não
querem ver que, todo dia morre um oprimido, e que se nossa missão como
cuidador, como profissional da saúde é lutar pela vida, lutar contra as
opressões é nada mais nada menos do que lutar pela vida.
Além das visitas já citadas fomos
também em unidades de Estratégia Saúde da Família, CAPS AD, CAPS Transtorno,
UPAE, UPA, CREAS, Hospital, Museu de Lampião, CEO.
O VerSUS 2015.1 do Sertão do Pajeú, me proporcionou
uma experiência que nenhuma sala de aula poderia me proporcionar. Poder sentir
na pele o sol do sertão, ver o seu céu tão estrelado e um pôr do sol sem igual,
com uma simplicidade incrível. Sem falar das pessoas que nos acolheram muito
bem. Obrigada ao povo Sertanejo que usa o pouco material que tinham para nos
dedicar total atenção e cuidado. Minha eterna gratidão, pela inocência, e
solidariedade vista em cada olhar das crianças do MST, que mesmo com o último
pedaço de picolé lhe oferecem com todo amor, que brincam com bola furada, que
sabem viver muito melhor do que eu em coletividade.
Com esse Ver-SUS aprendi na prática a
importância de mergulhar na realidade do outro para poder entende-lo. Agora,
espero continuar minha luta no movimento estudantil, no movimento social, na
minha futura profissão, revigorada pelo olhar de força, esperança e fé daquele
povo sertanejo. Muito obrigada, por tudo. E vamos à luta, porque como
concluímos lá, não haverá reforma sanitária se não houver reforma social.
Trechos da Carta à Juventude, de
Ademar Bogo
“Malditos
os que fazem da juventude um instrumento de guerra, que lhes negam o
conhecimento dizendo não ter vagas nas universidades [...] E assim veremos
florir os girassóis, ouviremos canções de liberdade, viveremos em uma grande
sociedade, onde florescerão todas as virtudes. Sentiremos o pulsar de cada
coração e a igualdade não terá fronteiras; no dia em que a nossa bandeira
estiver nas mãos da juventude.”